Manifesto

Largar o que não é seu, ficar com o que é, voltar ao seu lugar original.

Aos 17 anos eu me converti. Hoje eu diria de outro jeito: Deus decidiu morar em mim. Fui para dentro da igreja com tudo o que eu tinha, e virei pastor.

Com os anos, fui percebendo que o sistema em volta daquela fé tinha mais controle, cobrança e performance do que fé. Eu saí. E descobri que a fé que me habitava ia para além da religião, e que o deus da religião era pequeno demais para mim.

Muita gente que cresceu na igreja acha que só existem duas portas: ficar e obedecer, ou largar e se afastar de Deus. Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, já dizia o profeta. Ele mora em gente. Por isso eu acredito que existe outro caminho: largar o que nunca foi seu e ficar com o que é.

Quando eu falo em voltar ao lugar original, penso no que em você sobreviveu a tudo: o jeito como Deus te fez, antes das máscaras que você vestiu para caber na religião, na família, no trabalho. Voltar a uma fé sem tutela e sem intermediário, com Jesus e com as perguntas sem respostas.

Eu faço esse caminho com algumas lanternas. A primeira e principal é o ensino de Jesus. Depois vêm a psicanálise e a filosofia, e depois os livros. Com elas eu aprendi a me relacionar com Deus, a pensar com a minha própria cabeça e a sair do piloto automático, e ainda estou aprendendo. Faço isso em público, lendo, escrevendo e gravando todos os dias, do meio do caminho, nunca de cima.

Eu falo do segundo tempo da vida. Daqui eu vejo melhor quanto custa gastar anos com o que não era meu. Por isso eu escrevo e gravo: para que você, no tempo da vida em que estiver, não perca os seus dias com o que não leva a lugar nenhum. Ensina-nos a contar os nossos dias, pediu o salmista, para que alcancemos um coração sábio.

O que eu quero ver daqui a alguns anos é gente que, em qualquer tempo da vida, leva a fé, a dúvida e a vida inteira para o mesmo lugar. Gente que é a mesma pessoa em casa, no trabalho e diante de Deus.

O que a gente faz junto é nomear o que sente, pensar sem pressa e voltar, um passo de cada vez.

Rodrigo Campos

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